A Menina da Capa

(Por favor vejam este post até ao fim porque o mais importante está lá mais em baixo.
A sério. Por favor.)

Hoje dei com esta fotografia no Facebook e não pude deixar de reparar nela. Acho-a incrivelmente bela e, independentemente disso, extremamente rara. Para capa de revista.
Trata-se de uma fotografia da autoria de André Cepeda para a capa da The Wire que retarata Josephine Foster, cantora, compositora e autora/letrista (que fui investigar no Youtube e – hey! – vale a pena ouvir!) americana.

Ora a fotografia retrata, então, uma mulher (bela aos meus olhos mas os gostos não se discutem nem são para a conversa o essencial) cujo talento a tornou conhecida no universo onde se move. Eu diria que o talento está normalmente associado a uma inteligência qualquer, a uma eficiência, e que é uma capacidade que transcende a beleza. Óptimo.
Óptimo que esta mulher esteja na capa de uma revista por uma capacidade, um feito, qualquer coisa que não o tamanho das mamas.
Não deveria ser sempre assim?

Não é por ser uma revista de música que esta capa é menos rara. De há alguns anos para cá quase não se vende música sem sexo (estereotipado, claro está). Eu diria que em parte a culpa é da Madonna (Emancipada?! Têm a certeza?.. Pensem melhor!), mas não lhe faltaram seguidoras.
Aliás, de há uns anos para cá vende-se muito mais sexo do que música.

Lembro-me de quando vi pela primeira vez este videozinho que se segue. Lembro-me de ter pensado: “porquê?!”.
A menina canta o que verão, mas oferece também serviços de Lap Dance, Table Dance, lavagem de carros em bikini e, estou em crer, serviço de sexo oral ao tubo de escape.
O certo é que se especializou mesmo na venda de botas. Que se não são feitas for walking, são de certeza feitas para walk all over you.

Mas não percam muito tempo com a Jessica Simpson porque o que é mesmo importante é um vídeo que está ali mais abaixo.
Lá iremos.

Gostava de vos deixar também uma imagem das muitas e belas imagens que se encontram na página do Facebook da Companhia Maior, companhia de Teatro que se pretende dar mais enfoque e destaque à voz, criatividade, imagem, etc., de gente, actores, pessoas com mais de, quê?, 50 anos? Gente maior, mais velha, mais vivida, mais sábia, que tem de certeza muito MAIS para dar.
Ando aqui a pensar se me aceitarão… Aí está um projecto a que agarraria com unhas e dentes e entranhas também.

Agora muita atenção.
O que tenho para vos mostrar é gravíssimo.

Peguemos nisto tudo que vos mostrei até aqui, Jessica Simpson inclusive, e paremos para pensar.
Desde as primeiras incursões das feministas, essas loucas que andaram a queimar sutiãs, muito aconteceu, certo?
Certo.
Andámos muito para aqui chegar.
Mas ainda não ganhámos tanto como isso, ou por outra, temos muito que palmilhar…

Hoje nem vou falar nos direitos laborais, nas aberrantes diferenças no que toca ao trabalho doméstico entre homens e mulheres, nos cuidados parentais que ambos prestam, nas opções que as mulheres têm que fazer nesta sociedade moderninha após tão grande emancipação… (fazer o pleno? Trabalho + filhos + casa + sexo + apoio à família mais velha + tempo para realização pessoal??!! A sério?? Também ainda acreditam nisso? Fazem tudo? E bem? Pensem outra vez melhor…) … no que têm que sacrificar, daquilo de que têm que abdicar…
Hoje só queria falar mesmo de uma ínfima parte de um dos múltiplos aspectos em que nos falta ganhar, efectivamente, terreno, paz, direito e expressão.
Em sentido lato: a imagem.
Em pormenor: a intimidade.

“Ah, mas é tudo uma questão de liberdade (Ha! Liberdade…) de escolha”…
“Cada um faz do seu corpo o que quer”.
Claro.

Cada um injecta o que quer, onde quer. Botox, silicone, o diabo a quatro, nas mamas, nos lábios, nas pálpebras, nas nádegas, na testa…
Cada um corta e tira ou corta e põe, o que quer, onde quer.
Arranca pelos, pinta cabelos, maquilha e tatua. Claro.
E no cérebro também. Cada um enfia o que quer.
Certo?
Errado.
Cada um enfia o que pode.

Pois então, somos tão evoluídos que abominamos as culturas que maltratam e menosprezam as mulheres. Os véus, as burkas, a mutilação genital feminina.
Parece-nos absurdo que às meninas seja retirado o clítoris* para que nunca na vida possam -ultraje! – sentir prazer sexual (afinal, quem é que elas se julgam?).

* por falar nisso, sabiam que antes das ditas loucas feministas no início da segunda metade do século XX (anos 60 e 70), muita gente não sabia o que era isso de clítoris ou para que servia?
E querem apostar que há grande parte da população humana que ainda não sabe?

Bem, mas dizia eu que achamos todas essas práticas absurdas, mesmo que andemos a fazer sabe-se lá o quê em cima de sapatos com vários centímetros de salto (que certamente não abonam nada ao bem-estar) ou a passar cera quente em toda a parte e a arrancar pelos.

Agora, digam-me lá o que acham disto:
(O vídeo é bastante impressionante. Mas não deixem de ver, por favor, pela vossa saúde e, em última instância, pela saúde de todas…)

Caso não tenham tido coragem eu faço o resumo.

Neste vídeo mostra-se uma série de coisas importantes:
– A variedade de configurações possíveis no que toca ao orgão sexual feminino, vulgo vagina. Especial destaque para os pequenos lábios.
– Como a indústria de soft-porn (as revistas de meninas nuas) considera impróprias as imagens reais do orgão sexual feminino.
– Como as imagens reais são manipuladas de acordo com um “ideal” construído por essa mesma indústria.
– Como as imagens reais não são difundidas mas sim as imagens manipuladas.
– Como a cirurgia plástica passa a dar às mulheres a imagem manipulada em vez da imagem real.

Podíamos estar a falar de mamas também. Mamas insufladas como bolas ou abcessos, em vez de mamas reais, pequenas, grandes, médias.
Mas estamos a falar de como as mulheres cortam pedaços do corpo de uma zona que nem conseguem ver, com a finalidade de corresponder a uma imagem difundida e alimentada por uma indústria que, de certeza, não as serve a elas.

Em que bases assenta o prazer? O prazer próprio?
Pano para mangas.

Para já demos então espaço à diversidade.
O artista plástico Jamie McCartney decidiu por a mão na massa, literalmente, e fazer murais com esculturas (reproduções) de dezenas de vaginas diferentes (de mulheres diferentes). Pelo menos é educativo.

E porque hoje é Dia Internacional da Luta Contra o Cancro de Mama, deixo-vos também aqui esta linda ilustração de Agustina Guerrero, que celebra a diversidade de mamas. “Viva a mama (ou teta) em que mamei!”
Afinal, a sua utilização primordial.

E toca todas a celebrar: é tudo a apalpar as mamas, já!
E podem sempre pedir ajuda se vos apetecer!
Boa mama! :)

Post-Scriptum – saiu um novo livro de Naomi Wolf intitulado, precisamente, Vagina. Porque, diz a autora, precisamos de recuperar o nome para nós próprias, sem medos, sem pudores… e, pelos vistos, é bem capaz de ter razão!… ;)

Até ao próximo encontro.

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Comments
10 Responses to “A Menina da Capa”
  1. Rita diz:

    belíssimo texto!

  2. calita diz:

    Das vaginas ainda há muito pouca gente a falar (obrigada, já agora), mas de mamas já temos qualquer coisa. Pessoalmente gosto deste blog: http://escolhidas-a-dedo.tumblr.com/

  3. rita diz:

    Tinha muito para comentar e dizer aqui mas queria só partilhar duas coisas: um site fantástico, que faz uma listagem de “normal breasts”: http://www.007b.com/breast_gallery.php

    E uma coisa que escrevi há algum tempo sobre um concurso para uma revista (é comprido, chega ler o último): http://infernocheio.blogspot.pt/search/label/miss%20maxmen

  4. São João diz:

    Grande post. É uma pena as revistas femininas (o que quer que isso seja) não abordarem estes assuntos com seriedade (deviam-te pagar para escreveres sobre isto, como alguém já disse). Ultimamente tenho visto coisas de arrepiar por aí, desde páginas de facebook slut-shaming miúdas de 12 anos, a insultos gratuitos a quem quer que não tenha perfil de modelo. Deixo aqui dois links que se calhar já conheces
    http://www.endangeredbodies.org/
    http://www.everydaysexism.com/

    (A foto dessa capa é lindíssima. E chamou-me a atenção para uma coisa que ultimamente me anda a consumir: essa ideia demente de que mulher que não usa soutien é uma ordinária. E que andar sem soutien é uma provocação. A foto dessa capa é lindíssima.)

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  1. […] não retocadas pelo bisturi ou photoshop. Assim como há, à semelhança do que se passa com a cultura e os mass-media, no geral, quem julgue pertinente criticar figuras públicas, políticas (caso Hillary Clinton, por […]

  2. […] estar-me-ia a repetir. A resposta, e o que penso, está no post que originou este, por exemplo, e neste outro sobre a cena musical, entre outros. Mas, citando o finalzinho do artigo em questão: “Maybe I’m giving her too […]



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