From PORN to POP CORN – Beyoncé, lindinha.

A beleza é interior. É melhor trazermos uma sonda vaginal.

A beleza das intenções é toda interior. É melhor trazermos uma sonda vaginal.

Bem, vamos por partes. Isto é um daqueles posts complicados. (Mais um que exigiu uma graaaande trabalho de pesquisa, pelo que peço a Vossa atenção para as imagens. ;) )

Tenham paciência e deixem-se guiar, nomeadamente, pelos links que vos deixo (à excepção ali do primeiro, atrás, que era meramente ilustrativo).
É que isto não é assim tão linear…

Já há tempos que andava com esta questão da Beyoncé atravessada, porque, volta não volta, aparecia-me referida como feminista nalguns sites/blogs/páginas do FB/etc., feministas, que sigo. Foi, inclusivé, referida nos “25 Melhores Momentos Para As Mulheres no Ano de 2013“, pelo Huffington Post, a sua presença na capa da MsMagazine, e reforçada a sua grande tirada: “Remember, it was Queen Bey who proclaimed, “Who run the world? Girls.” “.

Ora isto não ia muito de acordo com a ideia que tinha da Beyoncé, da do Put A Ring On It, da dos espectáculos tão divulgados da Super Bowl (sendo que logo aí me apercebi da dualidade de critérios na observação da questão, surgindo argumentos como “poder feminino”, “afirmação”, associadas às imagens da despida e provocadora como sempre Beyoncé Knowles), etc., etc.

Mas há uns dias atrás, surgiu a notícia do lançamento surpresa de um novo álbum da cantora no iTunes, com 14 músicas e 17 vídeos lançados sem aviso naquela plataforma/loja de música. E, como foi igualmente divulgado o facto de a cantora ter usado, num dos temas, palavras do discurso “We should all be feminists”, de Chimamanda Ngozi Adichie, cujo vídeo no TED eu partilhei no FB (e acho que deveriam ouvir, guardando, para isso, 30 minutinhos do vosso precioso tempo), fui espreitar o que trazia de novo a feminista Beyoncé, cheia de esperança de encontrar algo a que me agarrar.

Digamos que o que vi, quer nas imagens de destaque, quer nos previews dos vídeos (que não vi na íntegra porque não comprei o álbum), não difere em nada do que é usual na carreira desta mulher.

Os destaques no cabeçalho do iTunes não nos levam a pensar que a Beyoncé esteja muito apostada em pregar a grande e real emancipação feminina.

Os destaques no cabeçalho do iTunes não nos levam a pensar que a Beyoncé esteja muito apostada em pregar a grande e real emancipação feminina.

Ainda assim, aguardei antes de verbalizar.

Eis senão quando, hoje – e parece que não há relação nenhuma, mas há – não resisti a comentar um post irónico sobre este vídeo da Maria de Rosário Mattos e Associados, Sociedade de Advogados, que dizia “Gato Fedorento? Francamente, a vida é muito mais divertida. Vejam o filme, é um marco do feminismo luso.” (dito por um rapaz bem jeitoso, mas isso agora não vem ao caso). P’la vossa saudinha, vejam o vídeo.

O meu comentário inicial foi: “Eu acho que ainda têm que melhorar um bocadinho para chegar ao nível da Beyoncé.”, mas depois alterei para “trabalhar” em vez de “melhorar”, não fosse alguém não perceber a ironia…

E então apareceu-me isto. Eu que não queria chamar nomes à Knowles, mas acho o texto muito pertinente. Leiam, leiam.

(Ainda sobre a Sociedade de Advogados, alguém me dizia que parecia um anúncio a prostitutas. Curiosamente, eu pensei o mesmo e fiz a associação a algo que já me aconteceu duas vezes nos últimos meses: respondi a anúncios de trabalho que nada tinham de suspeito e recebi resposta de empresas de “acompanhantes” que, por email, explicavam, com meias palavras, o trabalho que realmente tinham para oferecer e que, se eu quisesse, passava à segunda fase de recrutamento! – mas isto podemos desenvolver noutro post.)

Portanto, voltemos à Beyoncé.

Poder feminino?
“Don’t hate the player, hate the game.”? Disse a Gloria Steinem, com razão: “I wish we didn’t have to be nude to be noticed … But given the game as it exists, women make decisions. It’s ridiculous. But that’s the way the culture is. I think that we need to change the culture, not blame the people that are playing the only game that exists.”, a propósito das recentes actuações da Miley Cirus.

Pois, diga-se de passagem, que coitada da Miley Cirus. Eu nem quis entrar no debate porque realmente acho que a miúda pode e deve fazer o que quiser. Claro que as motivações por trás disso tudo é que me parecem penosas e não lhe auguram nada de bom. Em termos pessoais, quero dizer.

Mas a Beyoncé, já que falamos de poder, e poder económico não lhe falta, é já todo um outro campeonato. Ou o mesmo, mas a Miley acabou de chegar. E quanto mais dinheiro temos, e um certo status, caramba, mais opções podemos fazer. Se quisermos, claro está.

Para que conste: nunca vi a Beyoncé sem ser de cuecas, ou sucedâneos de cuecas (bodies, shorts muito short, etc); está quase sempre com uma expressão de êxtase sexual (falamos da expressão difundida pela pornografia, ou a exteriorização/representação do prazer, diferente do prazer real, pois) e não há nada que a Miley tenha feito que a Beyoncé não faça há anos (no último ano tem havido uma competição serrada pelo lugar de “cantora pop mais sexy de todas”).

Feminismo é isto?

Por mim, podia pregar os discursos feministas todos, mas com vídeos destes, convenhamos…
Deixo-vos uma breve selecção de imagens dos previews dos novos vídeos (nem fui aos velhos, afinal, a rapariga podia estar reformulada, já que anda a apregoar que “we should all be feminists”).

Afirmação do poder (qual poder? De quem? volto a perguntar) sexual da mulher? Mas com o ponto de vista masculino? A mim parece-me afirmação da cultura machista dominante com recurso a todos os meios (dinheiro, meios, e muitos profissionais envolvidos).
Não sou avessa à beleza, à estética – lido com isso desde sempre, estudei o assunto, mesmo na faculdade, trabalhei-o, etc.
Não sou um ser assexuado, nunca fui.
Mas isto? É o quê?

E além das questões feministas, há outras.
Uma mulher negra que vende uma imagem de si menos negra do que a realidade (googlem as polémicas sobre a publicidade em que ela aparece “embranquecida”, etc.); com os seus cabelos louros e longos, domados (vejam este documentário, se puderem), etc.

E a que revolução apela Beyoncé (vejam isto)?

É o quê a Beyoncé, além de uma Female Chauvinist Pig (estou a falar disto, podem comprar o livro aqui, desculpem ser um link da Amazon)?

A primeira a lucrar (em termos económicos) com o sucesso da exaltação dos princípios vigentes, do machismo, do capitalismo desenfreado, em suma, por andar de braço dado, aliada, fiel seguidora e enorme divulgadora/promotora desses mesmos princípios é a Beyoncé. Em termos morais e pessoais, não sei, mas cada um sabe de si. A questão é se compramos, ou não, aquilo que nos vendem. Neste caso, gato por lebre.

Porque, para terminar, esta corrente “feminista” (porque existe) que defende que a ostentação deste “capital erótico feminino” é libertador da sexualidade feminina (existe desde a grande vaga feminista, tendo havido logo uma separação entre duas “correntes”, mais ou menos em simultâneo com o surgimento da Playboy, mas já falámos sobre isso), esquece-se que essa ostentação é feita, 90 e muitos por cento dos casos, através do mesmo ponto de vista masculino. E que, não obstante os nossos imaginários, eles próprios, estarem já contagiados por essa cultura (visual e não só) dominante e omnipresente desde que nascemos, trabalhando o nosso subconsciente a cada passo que damos (revista que folheamos, escaparate que olhamos, televisão que vemos, filme que idolatramos, etc), os estímulos que nos levam ao prazer e à erotização são diferentes daqueles que, pelos vistos, levam ao prazer masculino.
E que quando nos limitamos a reproduzir essa ideia, ao invés de nos libertarmos, submetemo-nos a uma visão/estética/desejo que não são os nossos, espontâneos.
E, caso não saibam, não há nada mais anti-tusa, anti-orgástico, que não poder ser verdadeiro, confiante em si e no seu corpo e expressão.
A partir daí tudo é falso. Os orgasmos são falsos, o prazer é falso, etc. Tudo “à imagem de”.
E, se é isso que se pretende, então porquê reclamar das mulheres que simulam orgasmos, por exemplo?
Porquê tanto desespero na procura de uma vida para além da real, que satisfaça a voracidade deste “desejo sexual”?
Qualquer dia o mundo explode de tanta sensualidade. Explode! :)

Porque a corrida à erotização leva a extremos nunca antes vistos, e a uma velocidade nova.
É sabido. A massificação da cultura pornográfica, o acesso rápido pela internet, o vício, etc, etc. As Rihannas, as Beyoncés e as Mileys (já viram a nova curta metragem da moaning Lana aka Del Rey?) desta vida. Ou as advogadas da M.R.Mattos e Associados.

Os dinossauros morreram com o cometa e nós, exterminados, exauridos, com tanta punheta. :D
O iTunes a crashar com o lançamento do álbum e vídeos da Beyoncé, e tudo a correr para o cinema, para espreitar os fluídos intimistas da Adèle, ou os espasmos e o sémen cuspido do Ninphomaniac, próximo Lars Von Trier. (Onde andam as vossas vidas? Onde anda o vosso prazer? Quem vos retribui prazer e emoção?)
É o fim?

Ficam as imagens dos novos vídeos. E não deixem de ler este texto.

A Beyoncé com os lábios secos. Secam-se-lhe muito.

A Beyoncé com os lábios secos. Secam-se-lhe muito.

A Beyoncé e a insuportável dor de dentes.

A Beyoncé e a insuportável dor de dentes.

Beyoncé passeia o cão

Beyoncé passeia o cão

Beyoncé, descontraída, põe gasolina.

Beyoncé, descontraída, põe gasolina.

Beyoncé inveja o Borat.

Beyoncé inveja o Borat.

Twerk? Miley?

Twerk? Miley?

Beyoncé levanta-se da mesa e repara que se esqueceu de vestir uma parte de baixo. Furiosa, parte a loiça toda.

Beyoncé levanta-se da mesa e repara que se esqueceu de vestir uma parte de baixo. Furiosa, parte a loiça toda.

Beyoncé aguarda por boleia à chuva, coitada. Felizmente, há um cavalheiro que lha dá.

Beyoncé aguarda por boleia à chuva, coitada. Felizmente, há um cavalheiro que lha dá.

Beyoncé veste-se para a revolução. Ou isso.

Beyoncé veste-se para a revolução. Ou isso.

Enfim, acho que já perceberam a ideia.

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Comments
11 Responses to “From PORN to POP CORN – Beyoncé, lindinha.”
  1. D.S. diz:

    Gostei muito do artigo da Gloria Steinem. A frase dela resume muito bem toda esta polémica “I think that we need to change the culture, not blame the people that are playing the only game that exists.” A hipersexualização feminina vende e de que maneira. Esta gente do showbiz está toda a tentar lucrar com a coisa. Está muito longe de ser moralmente correto. Não sei se uma única pessoa conseguiria mudar isto tudo (parece que se passou a uma corrida sobre quem consegue ser a mais polemicamente sensual) mas se há pessoa que poderia estar perto, se quisesse, e porque alcançou o estatuto muito raro de trend-setter, seria a Beyoncé. Pena que o interesse não esteja aí.

    Btw, não sei se já viste o vídeo da Lily Allen “Hard Out There”? Foi bastante aplaudido por algumas feministas devido à sátira da letra. Mas eu tenho muita dificuldade em aceitar que a sátira seja feita através do conluio com a coisa que se está a criticar… O vídeo nisso é um bocado contraditório. Estou curiosa sobre o que acharás.

  2. Adorei as legendas das fotos. É assim, a nudez vende! Os videos estao provocadores e essa é a verdade!

  3. Sinceramente, preocupa-me mais a situação que se gerou à volta do vídeo da firma de advogadas.
    Vi o vídeo antes de ler fosse o que fosse e sem saber o que era. Quando acabei, claro que me estava a rir porque achei que não era a peça com mais bom-gosto que já tinha visto, mas as minhas críticas incidiam principalmente nas pessoas por trás da criação do vídeo, e não nas advogadas em si, embora elas tenham aprovado tudo.
    Começo a ler os comentários, e tudo se refere a como parece que elas prestam “outros serviços” e coisas de pior conteúdo. E o problema, é que neste video eu não vi ninguém a abanar rabos, nem sem roupa da cintura para baixo, nem em poses assim e assado. E só falam do que cada uma faz na empresa e mais nada.
    Isto preocupa-me, porque sei que, se naquela imagem de apresentação do site estivessem 4 homens e 1 mulher, as pessoas até se riam um pouco com o video, mas passavam à frente. Afinal, eram só 4 advogados e a assistente gira, certo? Mas como são 5 mulheres, num país em uma mulher deve é ser recatada, discreta, humilde e, preferencialmente, sem ambição – que é o que incomoda toda a gente neste vídeo – está o caldo entornado. E se são pessoas que cuidam da aparência, ainda pior, porque de certeza que prestam “mais serviços” que os próprios da advocacia.
    Se tivessem feito o mesmo video e estivessem todas tapadas com uma burqa, já estava bem? Tenho curiosidade em saber.

    • 30 e picos diz:

      Querida Alice,

      É sempre um prazer ler-te e às questões pertinentes que levantas.

      Em relação a esta, acho que vale a pena ler o comentário que a Rita Maria deixou no post sobre o mesmo assunto, no seu blog:
      http://infernocheio.blogspot.pt/2013/12/manual-de-instrucoes-para-um-bocadinho.html

      É o comentário das 11:44 AM, da “Rita Maria” e começa por “@Pedro @Cuca”, embora também ela se repita e já tenha respondido várias vezes a questões semelhantes.

      Beijinho e obrigada pelo comentário!

      • Lia, percebi o comentário da Rita Maria, mas à sua própria maneira, tem uma visão simplista da coisa.

        Acreditas mesmo que a profissão delas exige apenas capacidades intelectuais? Nenhuma profissão em que tens de lidar com o público se resume a isso. Um advogado masculino não tem cuidado com a sua imagem? Não é através dela e da sua capacidade de oratória, além da intelectual, que representa o seu cliente? Eu acho que sim.
        Eu vi o video e não vi piscadelas de olho, mamas a mexerem-se, rabos a empinarem-se. Desculpa, mas não vi. Vi um grupo de mulheres que têm um estilo com o qual não me identifico minimamente, e que é exarcebado pelo vídeo (culpa de quem realizou aquilo tudo), e que falam do trabalho que fazem.
        Qualquer empresa que tenha uma presença online, tenta transmitir ao público uma imagem daquilo que representam, tentando captar aqueles que se identificam com ela. Isso foi o que elas fizeram.

        A outra coisa com que discordo profundamente no comentário da Rita Maria é a guinada para o discurso sobre a “ilusão da conquista da sexualidade e desejo feminino”. O grande cliché.
        É que isso diz-me que, se de alguma forma eu exibir traços femininos em ambientes de trabalho que, até há bem pouco tempo, me estavam vedados por ser mulher, então, automaticamente, estou a instrumentalizar a minha sexualidade.
        Diz-me que ser mulher, e não esconder que o somos, não é compatível com grandes capacidades intelectuais.
        Também me diz que, se quiser que me levem a sério no mundo profissional e não assumam que faço “outros serviços”, então o mais adequado é esconder o meu corpo e aproximar-me o mais que possa de um comportamento masculino que, pelos vistos, é o verdadeiro profissional.

        Não sei de que vaga é essa ideia de feminismo, mas não compro.

      • 30 e picos diz:

        Volto mais tarde, que estou mesmo de saída.
        Percebo o que estás a dizer mas não vejo a coisa dessa maneira nem acho ou desejo que “se quiser que me levem a sério no mundo profissional e não assumam que faço “outros serviços”, então o mais adequado é esconder o meu corpo e aproximar-me o mais que possa de um comportamento masculino”. Continuo a achar que a diferença está toda nas identidades e nos pontos de vista sobre essas identidades, mesmo sexuais. Mas, claro, diferentes pessoas podem ter diferentes perspectivas.
        No que se cinge ao caso do filme das advogadas, até vou vê-lo outra vez. Mas depois. Beijinho, obrigada.

      • 30 e picos diz:

        Bem, revi. Acho o mesmo, menos apanhada de surpresa, claro.
        Parece-me tudo um despropósito. Continuo a achar aquilo que escrevi no comentário anterior e não defender de todo (nem vejo implicação directa nisso) que “se quiser que me levem a sério no mundo profissional e não assumam que faço “outros serviços”, então o mais adequado é esconder o meu corpo e aproximar-me o mais que possa de um comportamento masculino”. Uma coisa é identidade. Feminina, masculina, pessoal, enfim. Outra coisa é utilização do “capital erótico”. Este artigo sobre esta visão “Schopenhaueresca” da coisa, defendida em livro, parece-me fazer uma boa ilustração do tema: http://www.theguardian.com/books/2011/aug/19/honey-money-catherine-hakim-review
        Beijinhos

  4. triss diz:

    Como eu gosto dos teus posts! Fica no “não lido” claro, que ainda não consegui ver todos os links:-)

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