Ter 40 anos, uma série – Capítulo 1: música chata e a estética intelectualizável.

Talvez ainda falemos de sapatos

(no vídeo acima, Bill Murray canta Bob Dylan, nos créditos finais do filme St. Vincent; hélas, St. Vincent!)

Isto de ter feito 40 anos em Março e ainda não ter explorado o assunto é quase imperdoável, mas o que é facto é que a minha vida deu tantas voltas e tem sido tão bom que ainda não me apeteceu sentar e tecer grandes considerações.
Uma das coisas boas de ter 40 anos é que caminho, espero que saudavelmente, para uma euforia qualquer (já lá tenho um pezinho) que me permite, apesar de todas as restrições e cortes orçamentais, dizer o que quero (de certa forma sempre fui dizendo, mas, ai, caramba, há sempre uns últimos tabus e isto tende a ser muito libertador).

Nas minhas variadas formas, nos diversos suportes, no que toca a redes sociais (e, agora que penso nisso, na vida em geral), vou-me deparando com muita informação, muito conteúdo, muitas formas de expressão.
No outro dia, a propósito de um festival qualquer, fiquei a saber que a cantora St. Vincent vinha (Vem? Veio?) cá. É uma figura que habita pontualmente os meus feeds, recomendada por amigos, conhecidos, críticos de jornal (de música), etc. Reconheço-lhe o estatuto, o selo de qualidade, a garantia de quem sabe. Mas devo dizer-vos que a St. Vincent é chata. Chata. Chata, chata. Chaaata.*
E aproveito o embalo para dizer que o David Byrne, com quem colabora por vezes (sendo reconhecíveis e perceptíveis as características que comungam, para além da evidenciada), tirando algumas coisinhas, é, regra geral, chato (leiam aqui um chato com ênfase, dito com um murro na mesa, não como grito do Ipiranga, mas como pontuação).**

Isto de a música ter que ser de alguma forma intelectualizada para ser devidamente apreciada, ou gostada (sendo esta, por fim, a parte que me interessa), é uma coisa um pouco ingrata, não é? Quer dizer, compreendo; compreendo mas, em última instância, o que quero, da música que ouço com mero objectivo de fruição, não é compreender, mas gostar. Gostar, independentemente de compreender. Gostar, porque o corpo reage àquilo, de forma prazenteira. Gostar, porque sim, ou sem saber bem porquê. Gostar sem ter que me questionar porquê, mesmo que o faça mais tarde, em vez de passar pelo processo inverso, de ter que pensar para depois gostar. Haverá mérito neste último processo? Meu? Da música? Deve haver. No primeiro, da música, certamente.

Se – e isto acontece-me muito com jazz – oiço temas/peças, improvisos, que têm sobre mim um efeito agradável, de me embalar e conviver pacificamente com a minha existência/permanência naquele momento, como aliás acontece, por vezes, com o som das orquestras a afinar instrumentos (será isto ruído/som não musical?), devo exigir, para mim própria, o quê das músicas que ouço? (Haverá quem goste de Jazz e tenha paciência para música “intelectualizável”? (Claro, que sim, escusam de responder.))

Neste momento, com esta idade, quero que a música me soe bem, familiar, cúmplice.
Quero que flua como a música do Stevie Wonder, do Michael Jackson. (Deposito esperanças no Pharrell Williams.)

Será que quando for velhinha vou dar por mim a gostar do Quim Barreiros?

Claro que isto pode levar a alguns guilty pleasures, e depois uma pessoa tem que fazer a gestão da ética.
Por exemplo, a Blurred Lines: aquela merda é genial; aditiva, como o raio, apesar de todas as polémicas a que, como devem imaginar, sou sensível. Podiam estar a dizer outra coisa qualquer (que pena não estarem), que a música era boa na mesma. É tramado.

E a Shake it Off e a About That Bass, que ainda no outro dia não me saíam da cabeça (e, pelos vistos, da do Steve Carell também não)? E o que eu as dancei no banho? E no carro, quando levo as miúdas à escola? São mais politicamente correctas, apesar da futilidade, não é? E depois?

Agora, que a outra se chame St. Vincent, como o novo filme com o Bill Murray, de que partilho ali em cima (logo no início) um vídeo, é pura coincidência. Mas calha muito bem, porque a(s) personagem(ns) a que ele dá corpo (senão ele próprio), tendem a ilustrar isto que estou a tentar explicar (ou de que vos estou a falar, enfim).

Ainda a propósito disto tudo, tendo visto no outro dia, com atraso, o Only Lovers Left Alive, cheguei à conclusão que o Jarmusch não me convence e que deve ser um tipo bestialmente inseguro. :) É que tanta piscadela de olho a uma determinada elite cultural , tantas referências (o plano sobre os livros na bagagem, com colocação estratégica da lombada do Infinite Jest, mata-me), tanta preocupação estética, ou de conteúdos (ou de conteúdos estéticos), é uma chatice. Caramba, também se dizem coisas sem querer (ou sem querer tanto)!
Não obstante tudo isto, gostei de algumas coisas no filme: o ponto de vista (o filme de vampiros que não é um filme de terror, mas um filme romântico), a Wasikowska, sempre a Wasikowska, a Tilda, e a fotografia (sim a fotografia era bonita e tem alguns quadros/frames muito belos).

Assim como assim, gostei mais do Broken Flowers, também do Jarmusch, e também com o Murray, que, embora um pouco inconclusivo, diz muita coisa sem verbalizar.

E voltamos ao Bill Murray, onde começámos.
Queria muito partilhar convosco o genérico do filme St. Vincent, em que el fabuloso dança ao som de Somebody to Love, dos Jefferson Airplane.
É aquilo; é aquilo.

(As fotos com o miúdo não são do genérico, onde ele dança sozinho, mas de outra cena do filme.)

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PS – Então não é que, agora que estou mesmo crescida, recebi uma proposta de parceria, para divulgação e publicidade de um serviço aqui no blogue? E não é que fui recusando/adiei? Porque se trata de um site de venda de calçado e eu achei que, depois de tanto tempo sem escrever e a não dar importância nenhuma às modas, pareceria absurdo desatar aqui a falar de sapatos… mas não é que fui espreitar e achei que tinha sido parva porque efectivamente as marcas que comercializam tendem a ser de calçado que reúne as condições para que eu o aprecie (calçado confortável, em que a função supera a forma, ainda que, preferencialmente, possam ser aliadas – ou não me teria eu casado*** com umas sandálias Timberland, mas disso falaremos depois, porque eu não aceitei, de facto, a proposta, mas achei muito simpática a lembrança.)?

* e ** – Obviamente, por mais convictamente que o afirme, trata-se de uma opinião; vocês poderão achar exactamente o contrário.

*** Sim, casei-me, este ano; pasmem-se! :D

Gif animado, a partir de uma imagem do vídeo oficial de "Road to Nowhere", dos Talking Heads.

Gif animado, a partir de uma imagem do vídeo oficial de “Road to Nowhere”, dos Talking Heads.

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